Mais experiências burocráticas – o nome do meu filho

Ok… Já lá vão mais de três meses desde o meu último post mas gostaria apenas de assinalar, em minha defesa, que durmo pouco, mudo imensas fraldas e dou imensos biberãos a uma criatura que parece ter pilhas duracel hiper-carregadas.

Ainda não descobri qual é a kryptonite do meu filho mas quando descobrir, provavelmente, ele terá já 18 anos e estará de malas à porta, pronto para ir para a universidade que se encontrar o mais longe de mim possível.

Mas enquanto esse dia não chega, para além de todos os aspetos práticos da vida do meu rebento, vejo-me, também, obrigada a lidar com aqueles burocráticos.

Ora se vivêssemos em Portugal, o pior que poderia acontecer era eu escolher para a minha criança a versão masculina do nome Lyonce Viiktórya e passar o resto da vida a fazer o spelling de um nome que, provavelmente, eu teria anotado num post-it e colado naquele retângulozinho plástico transparente das carteiras. Aquele que permite aos condutores da Carris verem o nosso ar enjoado na fotografia do passe social e verificarem que somos mesmo nós que estamos a tentar entrar o mais rápido possível no autocarro para encontrar um espaço ideal – um lugar sentado para dormirmos até casa.

Mas vivo em Itália. E portanto o caso muda de figura.

Comecemos pelos meus apelidos. São três. Porque sou uma miúda tradicional e portanto comecei a usar o apelido do meu marido depois da assinatura do contrato de matrimónio, como foi designado pela funcionária da Conservatória do Registo Civil.

Os do meu marido são dois. Porque sou uma tipa moderna que só iria usar o apelido do marido, se o marido começasse a usar o meu. E como ele até só tinha o apelido do pai, calhava bem porque, pelos cânones lusos, ficava com o nome mais compostinho.

Claro que nós não estávamos a contar que nas terras dos spaghetti achassem que, porque temos iguais apelidos nos nossos documentos de identificação, somos irmão e irmã, pelo que nos toca, frequentemente, explicar tal aberração onomástica.

Soletrar palavras em italiano é uma verdadeira aventura e exige treino. Se não, vejamos:

    Lyonce – Livorno, ipsilon, Otranto, Napoli, Como, Empoli
    Viiktorya – Verona, Imola, Imola, Kenia, Torino, Otranto, Roma, ipsilon, Ancona

Agora imaginem fazer isto com três apelidos que até contam com lhes e nhes. Dá sempre confusão.

Claro está que a confusão com o registo do meu bebé começou logo no hospital.

Primeiro, os meus apelidos não tinham sido todos inseridos no registo do parto. Situação resolvida pelas enfermeiras das salas de partos no dia a seguir ao nascimento da criança.

Depois ficámos a saber que o bebé não saía do hospital sem certidão de nascimento. Portanto, ou eu (que tinha dado à luz 30 horas antes) ou o pai da criança, tínhamos que nos dirigir à Direzione Sanitaria do Policlinico Gemelli para tratar do assunto.

Claro que, registar um bebé português logo a seguir a um bebé chinês só pode dar barraca e portanto, a menina que ali trabalha inventou um novo nome: “Vincente”.

Creio que estava ainda com as ideias baralhadas com todos aqueles ings e ongs tão característicos do Extremo Oriente, pelo que, quando o meu marido deu por conta do erro, lá teve que voltar à Direzione Sanitaria e resolver o problema.

Com a certidão de nascimento do registo hospitalar, a minha alta e a do bebé lá viemos para casa todos contentes. Prontos para iniciar uma nova vida.

Primeiro passo, ir à Anagrafe do nosso Comune di residenza pedir uma certidão de nascimento do bebé em formato internacional para entrega no Consulado de Portugal em Roma.

Missão impossível.

Porque primeiro o hospital envia o registo de nascimento para a Anagrafe Centrale de Roma. Depois a Anagrafe Centrale envia para a Anagrafe de Grottaferrata. Que por sua vez envia a certidão narrativa do nascimento do meu filho ao Protocolo. Que concluiu o processo com o envio da mesma ao Stato Civile. Que não pode emitir a certidão de nascimento porque:

    a) o pai da criança e o meu marido não são a mesma pessoa segundo os registos civis – um tem dois apelidos e o outro só tem um;
    b) a criança continua a chamar-se Vincente pois a funcionária do Policlinico Gemelli mudou o nome da criança na folha de papel que nos entregou mas esqueceu-se de o fazer na base de dados informática.

Resultado?

Uma odisseia entre vários serviços comunais e centrais que já dura quatro meses.

Agora, finalmente, a criança tem o nome certo. E conseguimos solicitar a certidão de nascimento internacional. Que vai estar pronta exatamente dentro de 15 dias.

Mas essa odisseia será tema para outro post.

Beijos e abraços,
de uma Sónia muito ensonada

1 Comentário

Filed under Burocracia, Família

Uma Resposta a Mais experiências burocráticas – o nome do meu filho

  1. Ângela

    Ena, que bom ter noticías actualiazadas!

    Cá para mim, a hiperactividade…não será genética?
    Se a mamã tem uma energia vital enorme, então o “Vincente” tem a quem sair :) ))

    Apre, que paciência para as burocracias.
    Burocracia é o inferno!

    Abraço e beijinhos

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